Introdução ao posicionamento na mente “e coração” do consumidor

Em um mundo saturado de mensagens publicitárias, onde o consumidor médio é bombardeado com milhares de comunicações de marca diariamente, como uma empresa pode se destacar e ocupar um lugar privilegiado na mente de seu público-alvo? Esta questão fundamental encontra respostas revolucionárias na obra “Posicionamento: A Batalha por sua Mente”, escrita por Al Ries e Jack Trout, publicada originalmente em 1981 e que continua sendo um dos livros mais influentes na história do marketing e branding.

O conceito de posicionamento, conforme articulado por Ries e Trout, representou uma mudança paradigmática no pensamento de marketing. Antes desta obra seminal, as estratégias de comunicação concentravam-se primordialmente nos atributos do produto ou serviço. No entanto, os autores propuseram uma abordagem radicalmente diferente: o foco não deveria estar no produto em si, mas em como ele é percebido na mente do consumidor.

Como afirmam logo no início do livro: “Posicionamento não é o que você faz com um produto. Posicionamento é o que você faz na mente do cliente em perspectiva. Ou seja, você posiciona o produto na mente do cliente potencial.” Esta simples, porém profunda, reformulação transformou fundamentalmente a maneira como empresas abordam marketing, publicidade e estratégia de marca.

Neste artigo, exploraremos os princípios fundamentais do posicionamento segundo Ries e Trout, analisaremos por que estes conceitos permanecem cruciais no ambiente de marketing contemporâneo e, principalmente, discutiremos estratégias práticas para implementar um posicionamento eficaz em mercados cada vez mais competitivos e fragmentados.

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Os Princípios Fundamentais do Posicionamento

Primordialmente para compreender plenamente a revolução desencadeada por “Posicionamento: A Batalha por sua Mente”, é essencial explorar os princípios fundamentais que sustentam esta abordagem:

A Mente como Campo de Batalha

Ries e Trout argumentam que o verdadeiro campo de batalha do marketing não é o mercado físico, mas a mente do consumidor. Esta perspectiva representa uma mudança radical de foco: em vez de concentrar-se em características objetivas do produto, empresas deveriam preocupar-se primordialmente com percepções subjetivas.

Conforme explicam os autores: “A verdade tem pouco a ver com o sucesso no mercado. O que importa são as percepções na mente. A essência do marketing é lidar com essas percepções.”

Esta abordagem reconhece que consumidores não tomam decisões baseadas apenas em fatos objetivos, mas em suas percepções da realidade – frequentemente incompletas, simplificadas ou até distorcidas. Portanto, o marketing eficaz deve focar em gerenciar estas percepções, não apenas em comunicar características do produto.

A Mente Supersimplificada

Antes de mais nada, um conceito crucial introduzido por Ries e Trout é que a mente humana, como mecanismo de defesa contra a sobrecarga de informações, rejeita a complexidade e busca simplificar drasticamente as mensagens recebidas.

Em um mundo onde somos bombardeados com informações, a mente se protege filtrando e rejeitando a maioria das mensagens. Contudo, apenas comunicações simples, focadas e alinhadas com conhecimentos prévios têm chance de penetrar e permanecer na mente do consumidor.

Esta realidade cognitiva tem implicações profundas para o marketing: mensagens complexas ou que exigem muito esforço mental para serem processadas serão simplesmente ignoradas ou esquecidas rapidamente.

Escalas Mentais e Posições

Outro insight fundamental conforme Ries e Trout é que consumidores organizam produtos e marcas em “escalas mentais” ou “ladders” (escadas). Em cada categoria, a mente tipicamente reserva posições numeradas – primeiro, segundo, terceiro – com espaço limitado no topo.

A primeira marca a ocupar uma posição na mente do consumidor obtém uma vantagem significativa. Em outras palavras, como afirmam os autores: “É melhor ser o primeiro do que ser o melhor.” Esta observação explica por que pioneiros de categoria frequentemente mantêm liderança de mercado mesmo quando concorrentes posteriores oferecem produtos objetivamente superiores.

A Lei da Exclusividade

Ries e Trout observam que cada posição na mente do consumidor pode ser ocupada por apenas uma marca. Uma vez que uma marca estabelece firmemente sua posição, torna-se extremamente difícil para concorrentes desalojá-la.

Esta “lei da exclusividade” explica por que estratégias de “eu também” raramente são bem-sucedidas. Tentar ocupar uma posição já firmemente estabelecida por um concorrente geralmente resulta em desperdício de recursos e fracasso de mercado.

Estratégias de Posicionamento Segundo Ries e Trout

Com base nos princípios fundamentais, Ries e Trout propõem diversas estratégias para estabelecer posicionamento eficaz:

1. Fortalecer a Posição Atual

Por analogia para marcas que já ocupam uma posição valiosa na mente dos consumidores, a estratégia mais prudente é frequentemente fortalecer e defender esta posição, em vez de buscar reposicionamento.

Exemplo prático: A Volvo, por décadas, reforçou consistentemente seu posicionamento como líder em segurança automotiva. Em vez de tentar competir em desempenho ou luxo, a marca concentrou seus esforços em fortalecer a associação já estabelecida com segurança.

2. Encontrar e Ocupar uma Posição Desocupada

Para marcas que não conseguem ser as primeiras em uma categoria existente, Ries e Trout recomendam identificar uma posição valiosa ainda não ocupada na mente do consumidor.

Exemplo prático: A 7UP se posicionou historicamente como “The Uncola” (A Não-Cola), encontrando um espaço mental distinto em um mercado dominado por Coca-Cola e Pepsi. Em vez de competir diretamente com estas gigantes, a 7UP criou sua própria categoria mental.

3. Reposicionar a Concorrência

Quando posições desejáveis já estão ocupadas e não há espaços valiosos disponíveis, uma estratégia mais agressiva é tentar reposicionar os concorrentes – mudar a percepção que os consumidores têm sobre marcas estabelecidas.

Exemplo prático: A campanha “Avis is only No. 2 in rent-a-cars, so why go with us? We try harder” (Avis é apenas a número 2 em aluguel de carros, então por que escolher-nos? Nós nos esforçamos mais) reposicionou habilmente a liderança da Hertz como complacência, transformando a posição de segundo lugar da Avis em uma vantagem.

4. Estratégia de Exclusividade do Clube

Esta abordagem envolve posicionar a marca como exclusiva para um grupo seleto, criando desejo através da exclusão.

Exemplo prático: O American Express historicamente posicionou seus cartões premium como símbolos de status exclusivos, com o famoso slogan “Membership Has Its Privileges” (Ser membro tem seus privilégios), criando desejo através da percepção de exclusividade.

5. A Estratégia da Escada de Produtos

Reconhecendo que consumidores organizam produtos em escalas mentais, esta estratégia envolve criar uma “escada” de produtos dentro da própria empresa, cada um ocupando uma posição distinta.

Exemplo prático: A Procter & Gamble frequentemente utiliza esta estratégia, oferecendo múltiplas marcas de detergentes (Tide, Gain, Cheer, etc.), cada uma com posicionamento distinto para diferentes segmentos de mercado.

Aplicações Contemporâneas do Posicionamento

Embora “Posicionamento: A Batalha por sua Mente” tenha sido publicado originalmente há mais de quatro décadas, seus princípios fundamentais permanecem surpreendentemente relevantes no ambiente de marketing contemporâneo. Vamos explorar como estes conceitos se aplicam a desafios atuais:

Posicionamento na Era Digital

O ambiente digital, com sua fragmentação de mídia e proliferação de canais, torna o posicionamento claro e consistente ainda mais crucial:

1.Consistência Omnichannel: Marcas devem manter posicionamento coerente através de múltiplos pontos de contato digitais e físicos.

2.Simplicidade Amplificada: A necessidade de mensagens simples e diretas é intensificada em plataformas como redes sociais, onde o tempo de atenção é extremamente limitado.

3.Nichos Hiperespecíficos: O digital permite identificar e dominar nichos extremamente específicos, criando oportunidades para posicionamentos altamente focados.

Exemplo contemporâneo: A Dollar Shave Club revolucionou o mercado de lâminas de barbear com um posicionamento claro e disruptivo: “Lâminas de qualidade entregues por uma fração do preço das grandes marcas.” Esta mensagem simples e direta, amplificada por conteúdo viral, permitiu que a startup desafiasse gigantes estabelecidas como Gillette.

Posicionamento e Propósito de Marca

Uma evolução significativa desde a publicação original do livro é a crescente importância do propósito de marca como elemento de posicionamento:

1.Valores como Diferenciadores: Em categorias com paridade funcional, valores e propósito tornaram-se diferenciadores poderosos.

2.Autenticidade como Imperativo: Consumidores contemporâneos, especialmente gerações mais jovens, exigem que o posicionamento baseado em valores seja autêntico e verificável.

3.Posicionamento Interno e Externo: O posicionamento eficaz deve alinhar-se tanto com percepções externas quanto com a cultura organizacional interna.

Exemplo contemporâneo: A Patagonia posicionou-se consistentemente como uma marca de outdoor comprometida com sustentabilidade ambiental. Este posicionamento permeia todos os aspectos do negócio, desde práticas de fabricação até campanhas como “Don’t Buy This Jacket”, que paradoxalmente fortaleceu a conexão com consumidores que compartilham seus valores.

Posicionamento em Mercados Saturados

Em mercados maduros com múltiplos concorrentes estabelecidos, as estratégias de Ries e Trout oferecem abordagens valiosas:

1.Subcategorização: Criar uma subcategoria distinta dentro de uma categoria maior, onde a marca pode ser primeira.

2.Reposicionamento Disruptivo: Desafiar pressupostos fundamentais da categoria para criar uma nova perspectiva.

3.Posicionamento por Inimigo: Definir claramente contra o que a marca se posiciona, não apenas o que defende.

Exemplo contemporâneo: A Oatly transformou uma categoria madura (leites vegetais) ao posicionar-se não apenas como alternativa para intolerantes à lactose, mas como escolha ativa para consumidores preocupados com sustentabilidade. Seu tom irreverente e transparente criou uma subcategoria distinta onde pôde estabelecer liderança.

Implementando o Posicionamento na Prática

Transformar os princípios teóricos de Ries e Trout em estratégias práticas requer uma abordagem sistemática. Aqui está um roteiro para implementação eficaz:

1. Análise do Espaço Mental

O primeiro passo é mapear como os consumidores percebem atualmente as marcas em sua categoria:

•Pesquisa de Percepção: Utilize métodos qualitativos e quantitativos para compreender como consumidores categorizam e percebem marcas existentes.

•Mapeamento de Associações: Identifique quais atributos, benefícios e valores já estão fortemente associados a concorrentes.

•Identificação de Lacunas: Busque posições valiosas ainda não ocupadas ou subexploradas por concorrentes.

Ferramenta prática: Mapas perceptuais bidimensionais que plotam marcas em eixos relevantes para a categoria (ex: preço vs. qualidade, tradicional vs. inovador) podem revelar visualmente oportunidades de posicionamento.

2. Desenvolvimento da Declaração de Posicionamento

Com base na análise, desenvolva uma declaração clara e concisa que articule:

•Para quem: Seu público-alvo específico

•O que: A categoria em que você compete

•Diferenciação: O que torna sua marca única

•Benefício-chave: O valor que o cliente recebe

•Razão para acreditar: Evidência que suporta sua afirmação

Formato recomendado: “Para [público-alvo], [sua marca] é a [categoria] que [ponto de diferença] porque [razão para acreditar].”

Exemplo: “Para profissionais urbanos conscientes do tempo, Uber é o serviço de mobilidade que oferece conveniência sem complicações porque integra tecnologia intuitiva com disponibilidade confiável.”

3. Simplificação e Foco

Seguindo o princípio da mente supersimplificada, refine sua mensagem até sua essência mais básica:

•Identifique a “palavra-proprietária”: Busque possuir uma palavra ou conceito na mente do consumidor (Volvo = segurança, BMW = desempenho)

•Elimine complexidades: Reduza seu posicionamento a uma ideia simples que possa ser comunicada em segundos

•Sacrifique elementos secundários: Esteja disposto a não enfatizar outros benefícios para fortalecer sua associação principal

Exemplo prático: A FedEx poderia destacar múltiplos benefícios como confiabilidade, atendimento ao cliente e preços competitivos. Em vez disso, focou inicialmente em “entrega absolutamente garantida até as 10h30 da manhã”, sacrificando outros aspectos para dominar o conceito de entrega pontual garantida.

4. Alinhamento Organizacional

O posicionamento eficaz requer consistência em todos os pontos de contato:

•Comunicação interna: Garanta que todos os colaboradores compreendam e incorporem o posicionamento

•Alinhamento de processos: Adapte operações para entregar consistentemente a promessa do posicionamento

•Métricas alinhadas: Desenvolva KPIs que meçam especificamente o sucesso do posicionamento pretendido

Exemplo prático: Analogamente quando a Southwest Airlines se posicionou como a companhia aérea divertida e acessível, este posicionamento influenciou desde processos de recrutamento (contratando pessoas naturalmente extrovertidas) até políticas operacionais (eliminando classes e refeições para manter preços baixos).

5. Execução Consistente e Paciente

Em suma Ries e Trout enfatizam que o posicionamento eficaz requer consistência ao longo do tempo:

•Resistência à mudança: Evite alterações frequentes de posicionamento que confundem os consumidores

•Evolução gradual: Quando necessário, atualize expressões do posicionamento sem alterar sua essência

•Perspectiva de longo prazo: Reconheça que construir uma posição forte na mente do consumidor leva tempo

Exemplo prático: A Apple manteve consistentemente seu posicionamento centrado em design intuitivo e experiência do usuário por décadas, mesmo quando expandiu de computadores para dispositivos móveis, serviços e além.

Conclusão

“Posicionamento: A Batalha por sua Mente” de Al Ries e Jack Trout permanece uma das contribuições mais significativas para o pensamento de marketing e branding. Sobretudo ao deslocar o foco do produto para a percepção na mente do consumidor, os autores forneceram um framework que continua extremamente relevante em um ambiente de comunicação cada vez mais saturado e fragmentado.

Todavia os princípios fundamentais articulados por Ries e Trout – a mente como campo de batalha, a necessidade de simplicidade, a importância de ser o primeiro, a lei da exclusividade – oferecem insights valiosos para marcas contemporâneas lutando por atenção e relevância.

Em um mundo onde consumidores são bombardeados com mais mensagens do que jamais poderiam processar, a capacidade de ocupar uma posição clara, distintiva e valiosa na mente do público-alvo não é apenas uma vantagem competitiva – é um imperativo estratégico. Mas como os próprios autores afirmam: “Na selva da comunicação atual, a única esperança de triunfar é ser seletivo, concentrar-se em alvos restritos, praticar a segmentação. Em uma palavra, ‘posicionamento’.”

Para profissionais de marketing e líderes empresariais, a mensagem é clara: em vez de tentar ser tudo para todos, concentre-se em ocupar uma posição específica e valiosa na mente de seu público-alvo. Esta clareza de propósito e foco, quando executada com consistência e paciência, continua sendo o caminho mais eficaz para construir marcas poderosas e duradouras.

Referências

Ries, A., & Trout, J. (2009). Posicionamento: A Batalha por sua Mente. São Paulo: M.Books.

Ries, A., & Trout, J. (1993). The 22 Immutable Laws of Marketing. New York: HarperBusiness.

•Kotler, P., & Keller, K. L. (2012). Administração de Marketing. 14ª edição. São Paulo: Pearson Education do Brasil.

•Aaker, D. A. (1996). Building Strong Brands. New York: The Free Press.

•Wheeler, A. (2017). Designing Brand Identity: An Essential Guide for the Whole Branding Team. 5ª edição. Hoboken: Wiley.


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